Oito pistas sobre a educação híbrida | UNESCO

2021

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Um breve olhar sobre o que está a acontecer na educação, tanto a nível nacional como internacional, indicaria que os países agora estão a começar a transformar as suas formas de educar, aprender e avaliar em resposta a pelo menos dois desafios diferentes. Por um lado, uma consciência crescente de que o futuro das novas gerações está, em grande medida, ligado à sua formação em conceitos e ferramentas que lhes permitam construir um futuro melhor, sustentável e mais justo. Por outro lado, reconhecer a necessidade de repensar níveis, ofertas e ambientes de aprendizagem entre a formação presencial e a distância – o que genericamente se denomina modalidades híbridas de ensino. Aqui, propomos oito etapas principais em torno de sua necessidade e desenvolvimento. 

Em primeiro lugar, os modos híbridos combinam e integram métodos de aprendizagem presencial e remoto para ampliar e democratizar as oportunidades de aprendizagem para todos os alunos, de uma forma que seja adaptada às suas necessidades e expectativas pessoais. Isso requer encontrar as formas mais eficazes de equilibrar a aprendizagem presencial e remota, de modo a que os alunos – sejam quais forem as suas circunstâncias, contextos, habilidades e preferências – possam desenvolver todo o seu potencial de aprendizagem.

Isso não significa simplesmente adicionar plataformas, recursos e materiais educacionais online à educação presencial ou substituí-la por aulas online. Em vez disso, o principal desafio é aplicar a aprendizagem presencial e online como um único continuum, que integra diferentes iniciativas, plataformas, recursos, estratégias e atividades para melhorar a experiência de aprendizagem de cada aluno.

Em segundo lugar, os modos híbridos são pluralísticos. Não implicam um modelo único de organização e não funcionam de maneira igual e prescritiva para todos os centros educativos. Em vez disso, os modos híbridos destinam-se a orientar, partilhar e monitorizar a partir do nível central do sistema educacional. Eles articulam e oferecem um conjunto robusto de competências e conhecimentos que explicitam o porquê e o que ensinar, que são comuns e obrigatórias para todos os centros educacionais. Estabelece ideias, propósitos, percursos e processos esclarecidos sobre os conteúdos em que as novas gerações serão formadas. 

Terceiro, os modos híbridos são caracterizados pela seleção detalhada, priorização e sequenciamento de conhecimentos e competências essenciais. Eles permitem que o educador se concentre na identificação dos elementos mais essenciais da educação a partir da educação básica, garantindo a continuidade e a fluidez na abordagem das diversas disciplinas e priorizando a progressão da aprendizagem de cada aluno sem cortes ou quebras entre os níveis educacionais. De facto, os modos híbridos não podem operar na suposição de que cada subsistema ou nível educacional, seja ele qual for, define a ordem dos seus conteúdos por si mesmo.

Da mesma forma, a formação de professores, assim como as estratégias de desenvolvimento profissional, devem servir ao propósito de fortalecer as competências pedagógicas que facilitem o desenho de cursos, atividades e recursos que combinem a educação presencial e a distância. Isso significa desenvolver professores versáteis com capacidade de combinar diferentes ambientes de aprendizagem de acordo com a necessidade de cada aluno.

Em quarto lugar, os modos híbridos implicam repensar a organização e a hierarquia do conhecimento no currículo, bem como os tempos de instrução em grupo e personalizados. Isso baseia-se no entendimento de que cada aluno pode exigir diferentes combinações de formação presencial e virtual para se envolver, desenvolver e atingir os objetivos e resultados de aprendizagem definidos. O tempo de formação não pode continuar a ser ser considerado algo fixo e seguro para todos os alunos. Em vez disso, a equidade consiste em ser capaz de diferenciar as estratégias de intervenção de acordo com as necessidades únicas de cada aluno, a fim de alcançar resultados iguais.

Para tanto, os modos híbridos requerem o funcionamento de centros educativos pró-ativos em poder determinar, implementar e assumir a responsabilidade de entregar o que e como ensinar, aprender e avaliar. Não se trata de “delegar ou atribuir responsabilidades” sem um quadro de referência, mas sim de partilhar critérios e instrumentos para que os professores possam liderar, gerir e assumir de forma eficaz a educação das novas gerações.

Quinto, os modos híbridos redefinem as relações entre educadores e alunos. Ao expandir os espaços de interação, educadores e alunos passam a conhecer-se melhor, em diferentes situações e contextos – gerando condições para maiores níveis de reaproximação e empatia e, potencialmente, reduzindo as brechas intergeracionais. Ao mesmo tempo, ambos têm oportunidades e recursos aumentados para conceber resultados em diferentes tipos de conhecimento e para os desenvolver através de situações em que os alunos, tanto em grupos como individualmente, enfrentam diferentes tipos de desafios. A produção, disseminação e discussão do conhecimento torna-se um elemento-chave de uma proposta educativa sem limites para potencializar a aprendizagem.

Em sexto lugar, os modos híbridos implicam um diálogo renovado e uma construção coletiva entre a educação e as políticas sociais como um todo. Por um lado, isso significaria que o Estado, fortalecido em seu papel de fiador, garantiria que todas as famílias e domicílios tenham acesso em termos de infraestrutura física e equipamentos conectivos, plataformas e dispositivos que possibilitem que os modos híbridos se tornem efetivamente uma alavanca para o social e equidade educacional.

Ao mesmo tempo, o Estado também deve garantir as redes de proteção social. Inclui, entre outras componentes fundamentais, a prestação de serviços de alimentação, saúde e apoio psicoemocional aos alunos, no âmbito de uma promoção intensiva de estilos de vida saudáveis ​​e de apoio – que têm um impacto positivo no bem-estar geral dos alunos. 

Para tal, implica também uma relação mais estreita, baseada na confiança e na colaboração, entre o Estado e a sociedade civil – usufruir de diferentes espaços e atividades para que cada aluno encontre formas de ir ao encontro das suas preocupações. Não se trata apenas de aumentar estes espaços e tempos de presença – fundamentais para o bem-estar e desenvolvimento de cada aluno – mas também de se abrir a outros tipos de formação e experiências. Estes, por virem de diferentes instituições e atores, podem contribuir para a formação integral da pessoa.

Sétimo, um uso pró-ativo das tecnologias como parte dos modos híbridos pode fortalecer cada um dos pontos anteriores, no sentido de reforçar os espaços de produção, circulação e difusão do conhecimento sem fronteiras ou obstáculos. Neste sentido, a utilização da Inteligência Artificial, no quadro de uma sólida visão humanística e ética, pode ser um motor fundamental para ajudar professores e alunos a encontrarem respostas personalizadas às suas necessidades. Da mesma forma, a IA pode apoiar o desenvolvimento de projetos inovadores que ficam fora das “caixas” tradicionais e que permitem que professores e alunos integrem diferentes ideias, conhecimentos e recursos para responder aos desafios que os motivam a aprender.

Oitavo, os modos híbridos apresentam uma oportunidade única de repensar as relações entre escolas, professores, alunos, famílias e comunidades. A confiança entre instituições e atores pode ser reforçada – não apenas em termos de colaboração com a escola, mas também com o objetivo de desenvolver capacidades e comprometer-se com ações que fortaleçam o ensino e a aprendizagem de cada aluno de forma igualitária.

Por exemplo, isto implicaria que as famílias pudessem ser formadas sobre a melhor forma de acompanhar os seus filhos na educação, de forma a cumprir o papel de “treinadores” de aprendizagem que complementam o trabalho que está a ser desenvolvido pelo centro de ensino. Subjacente a esta ideia está a necessidade de promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida em diálogo e articulação permanente com a sociedade civil e centros de formação.

Em suma, os modos híbridos são uma iniciativa que pode representar a educação de hoje e de amanhã, e que pode permitir que as novas gerações sejam donas de seu próprio destino. Já sabemos que, nas suas linhas principais, a educação de hoje longe de garantir as bases fundamentais que permitem a todas as pessoas um futuro emocionante, justo e feliz. Esse desafio nos espera como sociedade.

Referência: Hybrid Education, Learning, and Assessment (HELA). (2021). Retrieved 22 November 2021, from http://www.ibe.unesco.org/en/news/hybrid-education-learning-and-assessment-hela

Sobre Jorge Borges

Professor.
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