O medo das redes sem fios

redes

| Stefan Wermuth | Reuters |  Público |

Há coisas inacreditáveis que são mesmo verdade e outras que parecem certas mas que não resistem a uma análise crítica. O medo das radiações electromagnéticas não é novo. Mas hoje as redes sem fios estão por todo o lado e há pessoas seguras de que elas fazem mal. A sério?

Tapetes com ligação à terra, cortinas enriquecidas com fios de prata, cabos eléctricos blindados e disjuntores que reduzem a tensão quando não há consumos são exemplos da considerável oferta de produtos para proteger das radiações electromagnéticas (e que se podem encontrar facilmente usando redes que funcionam através de radiações electromagnéticas). Nos Estados Unidos há quem se tenha refugiado na Zona Nacional de Silêncio Radiofónico, uma extensa área em que o uso de telemóveis e redes wi-fi está fortemente limitado. A francesa Marine Richard também vive longe dessas radiações e recebe uma pensão de incapacidade do Estado, na sequência de uma batalha judicial em que alegou ser alérgica às redes wi-fi, que em França foram proibidas nas creches desde o ano passado.

A hipersensibilidade à radiação electromagnética é uma doença que algumas pessoas acreditam ter e estar na origem de sintomas como dores de cabeça, fadiga, stress, distúrbios do sono, erupções cutâneas, dores musculares, náuseas, sangramento nasal, tonturas ou palpitações cardíacas. Mas na literatura médica é habitualmente considerada uma doença idiopática, ou seja, que surge espontaneamente e sem causa conhecida.

“Liga a rede a ver se eu noto”

Há tipos de radiação capazes de arrancar electrões dos átomos e das moléculas, transformando-os em iões, e que por isso são radiação ionizante. É o caso dos raios gama, raios X e raios ultravioleta. A radiação ionizante, apesar de poder ser usada para fins médicos, é capaz de causar graves problemas graves, incluindo cancro. A radiação das redes wi-fi e de telemóvel não é ionizante e por isso, em princípio, é bastante segura. Mas, nunca fiando, ao longo das últimas décadas têm sido feitos muitos estudos para avaliar os seus efeitos.

Em duas revisões sistemáticas da literatura científica publicadas em 2011 (esta e esta) nenhuma associação foi encontrada entre os sintomas e a proximidade de fontes de radiação electromagnética. Noutra investigação de 2012 foi pedido a pacientes diagnosticados com hipersensibilidade à radiação electromagnética que dissessem quando sentiam que uma fonte de radiação de telemóvel estava ligada ou desligada. Não foram capazes de acertar. Um trabalho publicado em 2015, que agregava dois grandes relatórios, mostrou que os doentes apenas sentiam um aumento significativo de sintomas quando eram informados que uma fonte de radiação tinha sido ligada. Se não soubessem, os sintomas não aumentavam.


ENRIC VIVES-RUBIO

“Na área dos efeitos biológicos e aplicações médicas da radiação não ionizante, foram publicados nos últimos 30 anos aproximadamente 25 mil estudos”, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). “Apesar da convicção de algumas pessoas de que é necessária mais investigação, o conhecimento científico nesta área é agora mais extenso do que para a maioria dos químicos. Tendo como base uma recente e profunda revisão da literatura científica, a OMS conclui que as provas existentes não confirmam a existência de qualquer consequência para a saúde resultante da exposição a campos electromagnéticos de baixo nível. No entanto, existem algumas lacunas no conhecimento sobre os efeitos biológicos e é necessária mais investigação.”

É nesta última frase, comum na literatura científica, que pode assentar a argumentação em prol dos efeitos biológicos negativos das redes sem fios. No entanto, a investigação feita até hoje aponta no sentido contrário. Claro que a falta de uma relação de causalidade não significa que os sintomas das pessoas que sofrem de hipersensibilidade à radiação electromagnética não sejam reais. Apenas que não é plausível que sejam causados pelas redes wi-fi ou de telemóvel.

Quando o problema eram os fios

Há um conjunto considerável de casos em que riscos inicialmente não conhecidos tiveram consequências graves, para a saúde ou para o ambiente, como aconteceu com o amianto e o DDT. Mas nem sempre é o caso. Por vezes há mesmo fumo sem fogo. É curioso que hoje as redes com fios são apontadas como alternativa segura, mas até há bem pouco tempo foi o contrário. Eram os cabos de alta tensão e os campos magnéticos a eles associados que causavam preocupação. Um estudo feito nos Estados Unidos e publicado em 1979, da autoria da epidemiologista Nancy Wertheimer e do físico Ed Leeper, concluía que as crianças residentes perto de cabos de alta tensão tinham o triplo da probabilidade de desenvolver leucemia. Apesar das muitas falhas, essa investigação lançou um clima de alarme que persistiu durante décadas, alimentado por meios de comunicação como a revista New Yorker. À medida que novos trabalhos de investigação desmontavam a ideia pouco fundamentada, nascia uma teoria da conspiração.

Charles Stevens, neurobiólogo que liderou um grande estudo realizado pela Academia Nacional das Ciências norte-americana disse em 1996: “A proximidade de cabos de alta tensão e incidência de leucemia infantil são ambas maiores em áreas de baixos rendimentos; a coisa mais prudente será evitar a pobreza.”

Em Portugal, o medo das linhas de alta tensão chegou com algum atraso. Em 2007, na sequência de protestos e de uma sentença do Tribunal Constitucional, a Rede Eléctrica Nacional fez um acordo com a Câmara Municipal de Sintra para enterrar uma linha de alta tensão, sendo os custos suportados pela autarquia (embora, o enterramento não elimine o campo magnético). Nos anos 70, quando os fornos microondas começaram a ser vendidos nos Estados Unidos, também surgiram preocupações acerca aos seus efeitos para a saúde, que não tinham qualquer fundamento, mas que geraram alarme. Tanto no caso dos cabos de alta tensão como no caso dos microondas (contados no livro Ciência ou Vodu, do físico Robert Park) a preocupação social não assentava em ciência consistente. Faz lembrar o wi-fi, não faz?

por David Marçal – Bioquímico


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