Como o Facebook ‘engoliu’ o jornalismo

Algo muito dramático está a acontecer com o nosso panorama mediático, com a esfera pública e com a nossa indústria jornalística, quase sem que nos apercebamos e, certamente, sem o nível de exame e debate público que merece. O nosso eco-sistema de notícias mudou mais dramaticamente nos últimos cinco anos do que, quiçá, em qualquer momento dos últimos quinhentos anos.

Assistimos a imensos saltos na capacidade técnica –realidade virtual, vídeo em direto, aplicações noticiosas com dotadas de inteligência artificial, mensagens instantâneas e aplicações de chat– e alterações massivas no controlo e finanças, colocando o futuro do nosso eco-sistema noticioso nas mãos de poucos, que controlam o destino de muitos.

Os Media Sociais não engoliram apenas o Jornalismo, engoliram tudo

Engoliram as campanhas políticas, os sistemas bancários, as histórias pessoais, a indústria do lazer, as vendas e até o Governo e a segurança. O telemóvel no nosso bolso é o nosso portal para o mundo. Penso que, em vários moldes, isto anuncia enormes e excitantes oportunidades para a educação, informação e conexão, mas traz consigo um leque de riscos existenciais de contingente.

Deveremos aceitar esses mesmos riscos? Será que compreendemos adequadamente quais são? Estaremos nós a trabalhar o suficiente para interrogar estes novos sistemas de poder, que possuem uma escala que desafia Governos mas que são incontáveis, excepto para os mercados, e intencionalmente opacos?

Pretendo examinar como é que o jornalismo se alterou através do poder da Internet e, especificamente, das redes sociais virtuais.

Vamos começar com uma história típica

Tem sido uma boa semana para a imagem pública do Jornalismo. Spotlight, o relato ficcional sobre a forma como o Boston Globe investigou as denúncias de abusos de crianças pela Igreja Católica em 2002 e 2003, acabou de ganhar um Oscar para melhor filme.

Spotlight é uma carta de amor para o jornalismo de investigação e tem a vantagem óbvia de ser quase absolutamente verdadeiro. Contudo, outras coisas aconteciam na mesma altura no Boston Globe que contam uma historia diferente sobre o Jornalismo. Uma década antes de revelar o escândalo de abusos, o Globe foi comprado pelo New York Times por cerca de mil milhões de dólares. Em 2013, uma década após o Globe ter ganho um Prémio Pulitzer pela história, foi novamente vendido, desta vez pelo Times a John Henry, o proprietário dos Red Sox e do clube de futebol Liverpool, pelo montante de 70 milhões de dólares.

Assim, nos últimos vinte anos, uma organização mediática com 100 anos de existência perdeu cerca de 90% do seu valor, ainda que tendo atingido o auge da excelência e da importância jornalística. Em Setembro de 2002, umas semanas depois da equipa do Spotlight ter impresso as primeiras alegações sérias sobre o abuso de crianças por sacerdotes, surgiu a Google News.

De facto, no post-scriptum do Spotlight, é-nos apontado o paradoxo do efeito que a Web teve sobre o Jornalismo: as histórias chegam mais depressa, encorajando mais investigação e maiores descobertas por todo o mundo.

Essencialmente, a Internet permitiu que a investigação do Globe se tornasse internacional. No entanto, algures longe das câmaras em 2003, os editores de jornalismo do Globe torciam as mãos sobre a incerteza do modelo de negócio subjacente.

O Boston Globe também não está sozinho nisto. O Washington Post, onde Marty Baron  – a personagem de Liev Schrieber no Spotlight - é actualmente editor, também foi vendido em 2013 ao fundador da Amazon e empresário Jeff Bezos.

As grandes famílias de publicações dos EUA, os Sulzbergers, que possuíam o New York Times, e os Grahams, proprietários do The Washington Post, simplesmente não conseguiram financiar a transição de duas novas marcas para o futuro digital. Aqui, no Reino Unido, sabemos o que isto significa. O Independent termina a sua impressão em papel este mês e, nos últimos 10 anos, 300 jornais locais desapareceram.

A Internet e as redes sociais virtuais permitem aos jornalistas fazer um trabalho poderoso, quando simultaneamente contribuem para fazerem das edições de jornais em papel um investimento não-rentável.

O que aconteceu ao Jornalismo nos últimos 5 anos através do impacto dos Media Sociais foi uma reviravolta tão grande como a que aconteceu nos anteriores 15 anos, quando pensávamos que não poderia existir uma maior alteração do que a chegada de uma Web amplamente disponível.

Duas coisas importantes que aconteceram e às quais não prestámos suficiente atenção:

Primeiramente, os novos editores perderam o controle sobre a distribuição. Esta moveu-se para os Media Sociais e para as empresas de plataformas que os editores não conseguiriam ter construído, mesmo se o tivessem desejado. Ela (a distribuição) é filtrada por algoritmos e plataformas que são opacos e imprevisíveis. O negócio das notícias tem adoptado isto e os operadores “nativos digitais”, tais como a BuzzFeed, a Vox e a Fusion, construíram a sua presença na premissa de que trabalham dentro do sistema e não contra ele.

Em segundo lugar, o inevitável resultado disto, que é o aumento do poder das empresas dos Media Sociais.
As maiores plataformas e empresas de Media Sociais, tais como a Google, a Apple, o Facebook e a Amazon, e até as empresas de segunda linha como o Twitter, o Snapchat e as empresas emergentes de aplicações para mensagens, têm-se tornado extremamente poderosas no que toca ao controlo sobre quem publica o quê, para quem, e como é que essa publicação é monetizada.
Existe uma concentração de poder muito maior a este respeito do que alguma vez houve no passado. As redes favorecem economias de escala, logo, a nossa cuidadosa curadoria do pluralismo nos mercados dos Media, como os do Reino Unido, desaparece de uma vez só, e as dinâmicas de mercado e as leis anti-trust, nas quais os americanos confiam para resolver tais problemas, estão a falhar.

A Revolução Móvel está por detrás de muito disto

Dada a revolução nos dispositivos móveis, a quantidade de tempo que passamos online, o número de coisas que fazemos online e a atenção que despendemos às plataformas explodiram. No Reino Unido, a quantidade de tempo que passamos online duplicou numa década, até 20 horas por semana, em vez das 10 horas em 2005. No seu pico, víamos 24h de televisão por semana, quando existiam poucos mais meios electrónicos visuais de entretenimento, ou nenhum meio.

Há dois anos atrás, no Reino Unido, o tempo que despendíamos a olhar para os nossos telemóveis e o tempo passado a olhar para os browsers no nosso desktop era algo como 50/50. Dois anos mais tarde, é de 60/40, a favor dos telemóveis. Isto é realmente significativo, assim como o design dos nosso telemóveis e as suas capacidades (obrigada, Apple), ao favorecerem as aplicações, promovem comportamentos diferentes.

A Google fez uma recente investigação através da sua plataforma Android que demonstrou que, embora possamos ter uma média de 25 aplicações nos nossos telemóveis, as regras habituais aplicam-se e nós apenas utilizamos quatro ou cinco dessas aplicações TODOS os dias – e daquelas que utilizamos diariamente, a maior parte dos tempo é passado nas aplicações para os Media Sociais. E, neste momento, o alcance do Facebook é muito maior do que qualquer outra plataforma social.

Nos EUA isto é ainda mais evidente do que no Reino Unido

A maioria dos norte-americanos adultos são utilizadores do Facebook, e a maioria deles recebe algum tipo de notícias através do Facebook, o que, de acordo com os dados do Pew Research Center, significa que cerca de 40% dos adultos norte-americanos considera o Facebook uma fonte de notícias.

Conforme o tempo gasto nas aplicações vai aumentando, vemos novos caminhos emergentes para a divulgação de informação, quer através das próprias aplicações sociais, quer, por vezes, através de fontes externas. Por exemplo, neste momento, todas as manhãs, uma aplicação de notícias envia links através da minha conta de Facebook e Messenger, às quais eu respondo. O website de finanças Quartz criou uma aplicação para notícias que, por sua vez, aplica uma aplicação de envio de mensagens. A este respeito, o futuro já está aqui. O Facebook, que é proprietário da WhatsApp e do Messenger, tem igualmente uma participação significativa em tudo isto.

Recapitulando:
1. As pessoas utilizam cada vez mais os seus smartphones para tudo;
2. Fazem-no essencialmente através de aplicações e, em particular, aplicações sociais e de mensagem instantânea, tais como o Facebook, o WhatsApp, o Snapchat e o Twitter.
3. A competição para se ser uma dessas aplicações é intensa. A vantagem competitiva para essas plataformas assenta em ser-se capaz de manter os utilizadores na Aplicação. Quanto mais os utilizadores estiverem dentro da aplicação, mais se sabe sobre eles, mais essa informação pode ser utilizada para a venda de publicidade, mais elevados serão os lucros.

O jornalismo e a divulgação de notícias tornou-se uma importante parte desta batalha pela atenção nas plataformas móveis, as pessoas estão curiosas sobre o que de momento se passa no mundo, os resultados desportivos, a meteorologia, o que os seus amigos têm feito e de como se saiu Donald Trump na Super Tuesday.

A competição pela atenção é feroz. Os “quatro cavaleiros do Apocalipse”, Google, Facebook, Apple e Amazon (cinco, se acrescentarmos a Microsoft) estão envolvidos numa tórrida e prolongada guerra sobre quais as tecnologias, plataformas ou até ideologias sairão vencedoras. É tão feroz quanto as rivalidades dos jornais nos anos 60 e das redes televisivas nos anos 70, mas com muito mais em jogo.

No último ano, jornalistas e editores de notícias têm, por isso, e de forma inesperada, sido beneficiários deste conflito.

Para ler todo o discurso, clique aqui.

Este é um excerto de uma palestra pública da autoria de Emily Bell, Professora Convidada em Media 2015-2016, no Centre for Research in the Arts, Social Sciences and Humanities, Cambridge University.

Sobre Jorge Borges

Professor.
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