O Plano Tecnológico da Educação (reflexões)

Já nos anos oitenta quando começaram a chegar às escolas os hoje esquecidos vídeos VHS, muitos acreditaram que com eles chegava a revolução educativa. Porém esses aparelhos nunca passaram de  um complemento, muitas vezes marginal, da maneira clássica de ensinar e aprender. A própria televisão passou ao lado da escola. Nunca se educou com a TV nem para a TV… se pensarmos que ainda hoje os nossos filhos a vêm cerca de 4 horas por dia…  e sem qualquer sentido crítico, percebemos melhores algumas coisas… serve isto  para chamar a atenção, ressalvando as distâncias, de que as ferramentas tecnológicas, por si só, não significam nada, sobretudo numa aula.Por isso, muitos especialistas e professores que há anos trabalham em escolas com as novas tecnologias, quando se lhes pergunta a sua opinião sobre o Plano Tecnológico da Educação, colocam a ênfase no como se vão usar os computadores e a Internet, no como oferecer novas formas de aprender. Muitos docentes apresentam numerosas dúvidas, sobretudo, porque  não se conhecem bem, as escolas não conhecem bem, os detalhes do plano, mas bem feito, com os meios suficientes e uma boa formação de professores, a implicação desses docentes, dizem, poderia acabar por ter um efeito muito, mas muito importante no sistema educativo.

O plano prevê dotar todas as escolas dos 2.º e 3.º Ciclos e Secundárias de banda larga (100 Mb / download e upload) em todas as salas de aula, sobre fibra óptica; rede segmentada em 3 (alunos, professores e serviços administrativos); wifi em toda a escola; 2 alunos por PC; 1 projector de vídeo por sala de aula: 1 quadro interactivo por cada 3 salas de aula. Vídeo vigilância.O plano está em curso e tem como meta o ano de 2010.

A isto há que somar as iniciativas recentes e também elas em curso: a e-Escola e a e-Escolinha. Portáteis para todos os alunos do 1.º Ciclo ao Secundário. No caso dos alunos dos 2.º- 3.º Ciclos e Secundário o portátil é também para professores e todos com plano 3 G de acesso à Internet. No 1.º Ciclo a ligação à Internet é opcional. Os PCs são dos alunos e têm-nos em casa e podem levá-los para a escola.

Para breve a abertura do Portal de recursos do Ministério da Educação. O e-portefólio digital dos alunos (facultativo) já está disponível para os alunos dos 9.º e 8.º anos na plataforma Moodle. Prevê-se que também os professores construam o seu.

A Plataforma Moodle está em todas as escolas, tal como o Joomla (CMS) disponibilizados pelo Ministério da Educação. Ambas plataformas livres.

O Software Livre (parente pobre) tem um sítio oficial de apoio pela primeira vez e é promovido sem grandes resultados, por razões óbvias e que por ora me abstenho de tocar, mas que lamento. Olhe-se para o Reino Unido para a Espanha, países com muitos menos recursos que nós e vejam-se as políticas implementadas… (para só nomear estes). Sim porque tudo isto de que falamos tem a ver com políticas.

Em 2010 e a cumprirem-se as metas estaremos realmente entre os 5 primeiros países da UE.

O Ministério da Educação devia perceber que todo este projecto tem que ter como um dos seus principais pilares a formação de professores, isto num sistema educativo no qual convivem hoje métodos diversos, métodos de ensino do século XIX -com professores que se dedicam a ler o manual na turma-,  com métodos do século XXI -apoiados nessas novas tecnologias- e com um imenso grupo a metade do caminho. O M. E. devia saber que o objectivo, directamente, é dar uma volta à escola, à forma de ensinar e aprender, e reconhecer que a mudança será gradual. As escolas têm que saber de forma clara o para quê do PTE.

A teoria mais recorrente, repetida muitas vezes nos últimos anos, é a de que já não é o professor que tem a informação e se apresenta aos alunos para que a assumam, a organizem, a associem nas suas cabeças e a recordem. Agora é o aluno quem tem acesso a muito mais informação da que o professor alguma vez sonhou. Mas o acesso à informação não lhes garante por si nenhum tipo de aprendizagem. Há que gerir o acesso, o contraste e a elaboração e discussão dessa informação e a realização de actividades que desemboquem num desenvolvimento de capacidades, habilidades e aprendizagens nos alunos. E tudo isto deve ser, tem que ser dirigido pelo docente. Falo de novos saberes, de novas competências de uma nova atitude, de um novo perfil de professor. De novos formadores como tenho vindo a dizer. Definam-se perfis, metas e tempere-se com exigência. Reformule-se o sistema de formação com coragem. Todos sabemos que a formação, que exige novos actores, tem que ser permanente e não balizada no tempo. Os centros de formação como estão não o garantem. Deveríamos ter formadores profissionais e a tempo inteiro. Ficava mais barato ao sistema e havia quem responsabilizar. Mas não, persiste-se nos erros, e acaba-se com estruturas que garantiam o apoio de proximidade com a necessária celeridade, falo dos Centros de Competência. Estes sim apoiavam a tempo inteiro e quando necessário as escolas. Para além de, e muito bem, acelerarem a utilização das TIC nas escolas sem rupturas e respeitando os ritmos de cada escola. Estavam montados, no terreno e com cobertura nacional. O desafio era optimizar a sua acção de forma a darem a melhor resposta aos desígnios nacionais para a educação.

Para além disto, (desabafos…) os docentes que já estão a levar a cabo as mudanças metodológicas queixam-se da falta de apoio que recebem.

A principal crítica que alguns professores fazem é a de que a implantação da tecnologia é um grande passo, mas não é a prioridade para melhorar o sistema, sobretudo quando o facilitismo é a palavra de ordem política, sentida  entre a generalidade dos professores: o que prova o falhanço desta forma de introduzir, quanto mais não seja, a tecnologia na escola… um dos principais argumentos para optar pela tecnologia tem de passar precisamente pela possibilidade de aumentar a exigência e os resultados do ensino e da aprendizagem de professores e alunos. Repito: as escolas têm que ser conquistadas, têm que perceber o porquê, o para quê e para onde. Como se faz? Com informação, com formação, com elas. Os professores têm que perceber as mais valias que obtêm no seu trabalho diário. Nos resultados, nos processos, na relação com os alunos e no ambiente de escola e de sala de aula. Recordo as vezes que a então Equipa CRIE saía para encontros, pelo país, com as escolas… para explicar, ouvir, alterar, conquistar, cativar e debater. Assim se promove a mudança.

Repito: claro que os professores necessitam de um plano integral de formação, que continua a faltar e sabe-se agora não acontecerá ainda este ano (…).  Grave, muito grave. Deveria ter começado o ano passado. O equipamento está a chegar às escolas… daqui a 3/4 anos estará obsoleto e sem, ou com muito pouco uso… pense-se no investimento e na falta de estratégia. Criaram-se boas expectativas, mas as prioridades educativas devem ser a luta contra o abandono escolar e o impulso da formação profissional. O plano tecnológico deveria garantir os planos de formação dos professores para, como está a acontecer, não começar a casa pelo telhado.  Deve garantir-se formação com carácter de urgência, para que o PTE não se reduza só à infra-estrutura tecnológica, sem mais. Afinal, para que serve a Escola? Que rumo?

É desejável que os professores continuem  a usar os manuais de texto em papel e prevê-se um sistema no qual os conteúdos digitais complementem os conteúdos clássicos. E também não está muito claro (repito) ainda até onde deve chegar o papel dessas novas tecnologias dentro da turma. Parece-me que não anulam tudo o resto. Nem sequer convém, mesmo numa situação ideal, passar para uns 50% das horas da turma baseadas nas novas tecnologias. Ainda que o aluno tenha um computador, não tem que o usar constantemente. Pasmo quando ouço numerosa gente, especialistas, assustados com a tecnologia, maldizendo-a, e partindo do falso pressuposto que tudo vai girar à volta dela. Não é desejável, nem possível, nem razoável. Só quando houver condições e de forma limitada. Quando vier a propósito e não excluindo nenhum dos outros recursos… Claro que a médio prazo, não tenhamos dúvidas, o recurso por excelência será a Web. Mal de nós se não for assim.

A escola deverá perseguir a invisibilidade da tecnologia. A tecnologia é um meio, não um fim em si. O objectivo da Escola é o que sempre foi. Isto só se alcança, repito-o, com a formação adequada.

A mudança levará tempo, defendo uma mudança gradual. Há muitos modelos de tarefas já testados e de grau de dificuldade variável. Por exemplo, desde o mais básico (o apoio visual na exposição do professor ou pedir aos alunos que procurem imagens e se documentem na Internet antes da explicação) até às mais complexas (uma vídeo conferência com uma escola de outro país durante a qual se apresentam temas em outra língua).

O bom é que não se parte do zero.

Com planos de formação, criação de materiais didácticos e equipas de apoio externo – este deveria ser um dos pontos fortes no processo de implantação , e da adequação em cada escola, em cada professor, ao seu ritmo para assimilar a ferramenta e as mudanças que o seu uso produz nas aulas. Preocupa-me muito mais a qualidade, a segurança e a confiança do trabalho na aula, que a velocidade com que os professores as usarão.

O horizonte é muito difícil de definir, porque não poderemos falar de um nível de integração total, com profundas mudanças metodológicas em todas as aulas, a não ser em bastantes anos e para isto os docentes são a peça chave: “É certo que para os professores, especialmente nouma primeira fase (1.º ano), terão que fazer um esforço importante e, para muitos, uma mudançaradical na sua forma de trabalhar na aula. Mas, também é certo que assumem a responsabilidade de formar os cidadãos de uma sociedade em que a informação flui de uma forma completamente distinta daquela que acontecia há só uma década”.

Falando com um colega que há mais de dez anos “pratica” tecnologia na sala aula…  insiste nos incentivos para os professores, com a formação. Mas também… o PTE vai fazer bem, “para a frente”, porque “a educação em Portugal necessita um empurrão”. Como em toda a mudança, ainda se desconhecem os resultados desta, mas, quem sabe?, poderá ser este, apesar de tudo, o empurrão.

Ao fim e ao cabo: com o computador, com a Internet: Até os mais resistentes sorriem…

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Sobre Jorge Borges

Professor.
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Uma resposta a O Plano Tecnológico da Educação (reflexões)

  1. Manuel Almeida diz:

    Caro Jorge Borges,

    Gostei de ler o seu texto. Mas parece-me irónioco que, quem está verdadeiramente “por dentro” do sistema e tem sido agente de muitas das mal-feitorias que apregoa, verta agora tantas lágrimas sobre o “leite derramado”. A sua militância no software livre impede-o de perceber duas coisas: que “livre”, em particular neste caso, não significa “gratuito” e que a adopção de “software livre” não exclui a adopção de “software proprietário”.

    Se é verdade que “A Plataforma Moodle está em todas as escolas, tal como o Joomla (CMS) disponibilizados pelo Ministério da Educação”, é igualmente verdade que serve, na maioria dos casos, para partilhar recursos pobres (em termos pedagógicos e multimédia) e, com grande assiduidade, de uma forma abusiva – isto é, desrespeitanto a propriedade intelectual alheia. Claro, quando é usada… Exemplos disto podem ser encontrados em aplicações financiadas e distribuídas pela próprio ME.

    Quanto ao exemplo do Reino Unido, presumo que está equivocado: naquele país não se previlegiou o software e os conteúdos por serem “livres” ou “privados”. Naquele país criou-se um esquema de financiamento para as escolas (e-credits) e uma entidade acreditadora dos fornedores, sem esquecer a formação e o apoio técnico. Mas quem escolheu as ferramentas foram as escolas – ninguém lhes impôs isto ou aquilo.

    No que respeita ao ME, ao CRIE e ao actual ERTE/PTE, o software livre não tem sido, como refere, um “parente pobre” – tem sido o único membro da família com direito a estar “na mesa”. Porque o ME, o CRIE e o ERTE/PTE desprezam a iniciativa privada e, pior do que isso, assumem-se como “concorrência”. Como sabe, neste país existe quem faça mais e melhor com meios privados, com investimentos que precisam de ser compensados, mas que são legítimos numa economia de mercado. Sobretudo por se tratar do mesmo país onde uma câmara municipal do interior usa um milhão de euros de dinheiros públicos para traduzir recursos educativos digitais da Intel, com 4 ou 5 anos de “idade”, e vem a Lisboa lançar o dito projecto sob os deslumbrados aplausos provincianos da hierarquia do ME e do Plano Tecnológico. E mais: essa mesma autarquia, com os amigos do costume, vai investir mais 900 mil euros na ampliação do dito projecto. Castelo Branco: diz-lhe alguma coisa?

    Quanto à sua afirmação: “É desejável que os professores continuem a usar os manuais de texto em papel e prevê-se um sistema no qual os conteúdos digitais complementem os conteúdos clássicos. “, informo já está ultrapassada. Existem sistemas com REDs que complementam os manuais impressos (pelo menos, desde 2006…) e só mesmo as pessoas fechadas nas torres de marfim da 24 de Julho o parecem desconhecer. E tudo isto é feito sem dinheiros públicos, com formação de professores e muito suor.

    Já agora, gostaria de saber qual é a sua posição relativamente aos 7 CDs/DVDs que o ME-DGIDC distribuiu pelas escolas com a menção “conteúdos não certificados”. Sabe, é tudo software e conteúdos “livres”, mas pelos vistos não devem estar livres de asneiras. O SACAUSEF e a certificação de conteúdos serve apenas para fazer colóquios e discutir o óbvio ou é uma arma de arremesso para manter os privados “em respeito”?

    Talvez um dia se faça uma contabilidade do custo da cruzada do Moodle e dos conteúdos “livres”. E nessa altura se perceberá que, com muito menos dinheiro, se teria progredido mais, se teria estimulado outras práticas docentes e, sobretudo, se teria proporcionado melhores condições para o ensino e para a aprendizagem nas escolas públicas portuguesas, caso dessem a oportunidade de serem os docentes a decidir. E não me venha falar de “software livre” quando o Estado Português, por via do CRIE, da ERTE/PTE ou de alguma universidade “amiga” consome recursos públicos a produzir alternativas às propostas dos privados.

    Porque, ironicamente, quem se preocupa com a racionalidade económica e tem a preocupação de mostrar resultados não anda a brincar ao “software livre” – é que já perceberam que o suposto “livre” tem custos mais elevados do que as propostas com preço. E os privados não distribuem “coisas” com rótulos desresponsabilizadores…

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