Web 2.0. O utilizador, o novo rei da Internet

utilizador

“Tu. Sim, tu. Tu controlas a Era da Informação. Bem-vindo ao teu mundo”. Este era o título que podia ler-se na capa da revista Time do último número de 2006, dedicado, como já é tradição nesta publicação, a escolher a personagem mais destacada do ano. Essa capa cuja reprodução pode ver-se nesta página? oferecia a fotografia de um computador pessoal cujo ecrã se tinha transformado num espelho no qual se reflectia a cara de cada leitor da revista. Assim, qualquer cidadão se convertia no protagonista do ano.

A eleição dos editores da Time era mais um reflexo de um fenómeno que acabou de colher em 2006: o crescente protagonismo adquirido pelos utilizadores, pelos indivíduos, na configuração da chamada “sociedade da informação”. “Este foi o ano dizia-se na revista em que as pessoas tomaram o controlo dos meios de comunicação”.

A capa da Time, que deu rapidamente a volta ao mundo, supunha também a cobertura quase definitiva de um conceito aparecido só um par de anos antes: o da Web 2.0.

Este livro está dedicado a este fenómeno. Nestas páginas tenta-se explicar em que consiste a Web 2.0, quais são as suas principais características e os seus protagonistas mais relevantes e qual é a sua importância e o seu lugar na curta história da Internet.

Ainda que tenha os seus detractores, é inegável que, de um modo ou de outro, o conceito Web 2.0 entrou definitivamente no mundo on-line. Em Abril de 2007, uma pesquisa do termo “Web 2.0” no Google, o principal buscador da Internet, oferecia nada mais, nada menos que 224 milhões de resultados.

Para além disso, ao longo de 2006, a “Web 2.0” foi uma das definições mais solicitadas pelos utilizadores no Google. E das dez palavras mais pesquisadas neste motor em 2006, metades estavam relacionadas directamente com o fenómeno da Web 2.0. Em concreto, entre essas dez palavras apareciam duas das principais redes sociais existentes na rede Bebo e MySpace?, a página de vídeos Metacafe, a enciclopédia livre Wikipedia e o conceito “wiki”. De todos eles se fala nas páginas deste livro.

Precisamente é na enciclopédia internacional gratuita Wikipedia, cujos conteúdos são criados pelos utilizadores, a entrada mais linkada a partir de outras páginas web ao longo de 2006 foi a “Web 2.0”, segundo um estudo realizado pela companhia Nielsen BuzzMetrics, especializada na medição e análises da actividade dos utilizadores e a sua crescente influência na Internet. Para além da “Web 2.0”, outras entradas relacionadas directamente com a Web 2.0, como o blog, AJAX, wiki, RSS e podcasting todas elas definidas no glossário que se inclui na parte final deste livro apareciam entre as onze mais vinculadas.

A Wikipedia, cujo uso não deixa de aumentar em todo o mundo, converteu-se num dos exemplos mais representativos do fenómeno Web 2.0. Em numerosos países esta enciclopédia de cidadãos gratuita conseguiu situar-se entre as webs mais utilizadas pelos utilizadores.

Outra referência chave no mundo da Internet, o motor de pesquisa de blogs Technorati, serve também como ponto de referência para demonstrar o protagonismo adquirido pelo conceito Web 2.0. Assim, o Technorati revela que a etiqueta “Web 2.0” aparece habitualmente entre as mais utilizadas pelos autores de blogs de todo o mundo na hora de categorizar os conteúdos que publicam. Dito de outro modo, entre os milhões de bloggers existentes em todo o mundo, falar sobre a Web 2.0 é algo bastante habitual.

E algo similar sucede no serviço de selecção e gestão de páginas favoritas mais popular da Internet, del.icio.us (um dos chamados “marcadores sociais” analisado neste livro), onde a etiqueta “Web 2.0” está entre as cinco mais empregadas pelos utilizadores na hora de catalogar as páginas favoritas que encontram na Internet.

O Google Trends, um serviço do motor de pesquisa Google que permite analisar a evolução do interesse dos utilizadores da Internet sobre qualquer termo em função do volume de pesquisas e das notícias publicadas sobre esse assunto, revela que a partir de meados de 2005 o interesse por tudo o relacionado com a Web 2.0 não deixou de crescer (ver gráfico).

O Que é a Web 2.0?

Para alguns, Web 2.0 é só uma palavra de moda que não admite uma definição específica. Para outros, todavia mais críticos, é um termo vazio de conteúdo. Na minha opinião, Web 2.0 é um conceito plenamente válido que admite diversas definições e inumeráveis derivações que se poderiam resumir nos três pontos seguintes:

– Segunda fase de Internet: Web 2.0 é a segunda etapa dos projectos e negócios de Internet, uma vez superada a enorme crise que se produziu a partir de 2000 com o rebentar da chamada “borbulha ponto com”.

– Web como plataforma: Web 2.0 é uma nova maneira de oferecer serviços na Internet graças à soma e combinação de diversas tecnologias que permitem utilizar a rede como uma plataforma de aplicações, o que abre grandes possibilidades criativas.

– O utilizador é o rei: a Web 2.0 é uma etapa na qual o utilizador adquire um grande protagonismo. Passa de ser mero espectador e consumidor do que lhe oferece a Internet para converter-se em criador e gerador de conteúdos e serviços. É um utilizador que participa de maneira activa.

Estas três grandes ideias, apoiadas com numerosos exemplos, aparecerão ao longo das páginas deste livro.

Das três ideias, a que em minha opinião tem mais relevância e supõe o elemento mais determinante do fenómeno da Web 2.0 é a terceira, a que se refere ao papel que desempenham os utilizadores. Por esta razão, um dos capítulos deste livro está intitulado precisamente “O utilizador é o rei”.

A raiz do êxito desta denominação, a etiqueta “2.0” foi utilizada em muitos outros âmbitos directa ou indirectamente relacionados com a Internet: educação 2.0, publicidade 2.0, etc.

A capa da Time

Voltando ao exemplar da revista Time, para ajudar no processo da selecção da sua personagem do ano a revista utilizou uma das vias mais representativas da Web 2.0: o portal de vídeos YouTube. O director da Time, Richard Stengel, publicou um vídeo no YouTube, a web de vídeos mais utilizada pelos utilizadores da Internet(?) em que pedia às pessoas que propusessem candidatos a ser nomeados personagem do ano. Entre as nomeações propostas pelos leitores da Time encontravam-se as do actor Sacha Baron Cohen, protagonista da película Borat; a do ex-secretário da Defesa de Estados Unidos, Donald Rumsfeld; a do ex-vicepresidente dos Estados Unidos Al Gore, reconvertido em defensor do meio ambiente, ou a dos criadores do YouTube.

Finalmente foram os próprios utilizadores os escolhidos pela Time como personagens do ano. Stengel justificava-o escrevendo que são os indivíduos os que “estão a mudar a natureza da era da informação”, que são “os criadores e consumidores do conteúdo gerado pelos utilizadores, os que estão a transformar a arte, a política e o comércio”. Em definitivo, estes utilizadores activos e participativos “são os cidadãos comprometidos de uma nova democracia digital”.

Para alguns, dizia o director da Time, “este fenómeno é perigoso”. Mas não para ele. “A era dos novos meios da Web 2.0, escrevia Stengel, é ameaçadora só se se crê que um excesso de democracia é o caminho para a anarquia. E eu não o creio”.

A Time encomendou quase sete milhões de finas lâminas de espelho a uma empresa do estado do Minnesota (EU) para colá-los nas capas desse número da Time, convertido no de maior tiragem da sua história. “Decidimos por um espelho na capa porque literalmente reflecte a ideia de que vós, não nós, estais a mudar a era da informação”, explicava o responsável máximo editorial da Time.

Sete anos antes, em 1999, a Time havia escolhido como homem do ano Jeff Bezos, fundador e conselheiro delegado da maior loja electrónica do planeta, a Amazon.com. Visto com a perspectiva actual, poderia dizer-se que essa foi a capa dedicada pela Time à Web 1.0, protagonizada por uma primeira jornada de jovens empresas e empreendedores que se lançaram nas novas águas da Internet para tentar mudar o modo de fazer negócios, de comunicarmos, de nos informarmos, de comprar ou de nos relacionarmos.

Como se explica nas páginas deste livro, em poucos anos produziu-se um autêntico boom bolsista que viveu o seu momento culminante em 10 de Março de 2000. Durante esse dia, o mercado electrónico do Nasdaq, no qual figuram as principais empresas tecnológicas e da Internet, alcançou o seu máximo histórico: 5.132,52 pontos.

A partir desse momento, como se vê no gráfico, as acções das companhias de Internet iniciaram uma queda brutal que acabou em pouco tempo com os sonhos, as ilusões e as poupanças de muitos.

Essa queda pôs fim também a um modo de fazer negócios, a uma maneira de avaliar as empresas em função quase exclusivamente do seu número de utilizadores, e não pelo valor real que estes acrescentavam, a uma etapa económica que se havia baptizado o nome de “nova economia”.

Amazon.com foi uma das estrelas desse primeiro boom da Internet. Mas, diferentemente de outras muitas empresas de então, Amazon.com sim estava cimentada sobre um plano de negócio real e, hoje em dia, Jeff Bezos e a sua empresa representam também o melhor da Web 2.0.

Jovens ao poder

Com os seus então35 anos de idade, Jeff Bezos conseguiu ser homem do ano da Time, algo que na sua idade só haviam logrado o aviador Charles Lindbergh (en 1927, com 25 anos de idade), a rainha Isabel II de Inglaterra (em 1952, com 26 anos) e Martin Luther King (em 1963, com 34 anos). A revista chamou-lhe o “rei inquestionável do cibercomércio”.

A nova jornada de projectos Web 2.0 também está protagonizada em boa parte, como sucedeu com a primeira ola de Internet, por jovens empreendedores recém saídos da universidade ou todavia estudando nela, que estenderam as novas regras do jogo digital e estão tentando tirar o máximo partido delas. Representam uma geração nascida quase a par da rede, para quem a Internet é parte essencial e natural das suas vidas.

Com os seus projectos, tentam que a Internet preencha alguns vazios existentes até então. Querem que a rede torne as coisas mais fáceis, facilite a comunicação, a interacção com os outros; pretendem que a rede lhes simplifique a vida a eles e aos milhões de utilizadores a que desejam fazer chegar os seus serviços. Assim nasceram, de facto, boa parte dos projectos Web 2.0: detectando alguma carência e imaginando como a Internet pode oferecer uma resposta adequada.

O YouTube, comprado pelo Google antes inclusive de cumprir um ano na rede por 1.650 milhões de dólares, viu a luz porque os seus criadores queriam encontrar um sistema fácil de partilhar com os seus familiares e amigos os vídeos pessoais que gravavam com as suas câmaras digitais. Hoje, milhões de pessoas de todo o mundo publicam no YouTube os seus vídeos.

Del.icio.us, um dos principais marcadores sociais, adquirido pela Yahoo! em 2005, nasceu das mãos de Joshua Schachter “como um hobby e uma maneira informal de etiquetar e partilhar páginas web entre amigos” , segundo se explica na própria web.

Outro dos sítios mais representativos da Web 2.0, a rede social Facebook, nasceu pela necessidade detectada pelo seu criador, Matt Zuckerberg, de dispor de um sistema para identificar os estudantes que viviam nas distintas residências da Universidade de Harvard. Zuckerberg criou numa semana um directório on-line com esse objectivo. A ideia estendeu-se por outros campos universitários e foi-se expandindo rapidamente até converter-se no que é hoje: uma peça cobiçada pelos grandes da Internet pelo enorme uso que fazem dela os seus milhões de utilizadores. Facebook conseguiu transferir para o mundo on-line comunidades que já existem no mundo físico, seja na escola, na universidade ou no trabalho.

YouTube, Flickr, MySpace, Facebook, del.icio.us, digg, Technorati, blogger, Google Maps, estes são alguns dos muitos nomes protagonistas da nova Web 2.0. Mas todos estes projectos não seriam nada sem a participação activa dos utilizadores. São os utilizadores os que criam e publicam vídeos no YouTube; os que publicam, etiquetam e partilham as suas fotos no Flickr; os que contam a sua vida, publicam a sua música favorita ou mostram as suas fotos no MySpace; os que se relacionam com os seus companheiros de universidade no Facebook; os que escolhem, classificam e mostram publicamente os seus sítios web favoritos no del.icio.us; os que seleccionam e votam as notícias que lhes interessaram no digg; os que publicam blogs no Blogger e outros serviços similares que o Technorati analisa sem descanso, os que tiram partido dos mapas do Google acrescentando-lhes informação em forma de texto, fotos, gráficos o vídeos.

Uma das empresas que se dedica a analisar o comportamento dos utilizadores da Internet, Hitwise, calculou em Abril de 2007 que o conjunto dos sítios Web 2.0 gerava já os 12 % do tráfego total da nternet . Dois anos antes, só representavam 2 % do tráfego. Parece evidente que a Web 2.0, a web dos utilizadores, não fez mais do que arrancar.

Para quem é este livro?

Este livro é dirigido a distintos públicos. Por um lado, a todas aquelas pessoas que puderam falar em algum momento da Web 2.0 e querem entender melhor do que se trata. Por outro lado, a todos aqueles profissionais de diferentes interesses que necessitem conhecer melhor este fenómeno para podê-lo aplicar com vantagens no seu trabalho. Desenhadores, criativos e programadores, empreendedores, gestores de projectos, responsáveis de operações, responsáveis de estratégia de negócio, directores de empresa, publicitários, profissionais do marketing e as relações públicas, jornalistas, professores, analistas… todos eles podem encontrar nestas páginas resposta a muitas das interrogações que, com toda a segurança, lhes apresenta o novo mundo digital.

Finalmente, é um livro útil para qualquer utilizador de Internet que queira inteirar-se do fenómeno da Web 2.0 para entendê-lo melhor, ver o que lhe oferece e descobrir como pode obter dela o máximo partido.

texto original em: http://www.elpais.com/articulo/internet/Web/usuario/nuevo/rey/Internet/elpeputec/20071129elpepunet_8/Tes

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Sobre Jorge Borges

Professor.
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Uma resposta a Web 2.0. O utilizador, o novo rei da Internet

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