O lado mais humano da tecnologia web

GIJÓN (ASTURIAS).- A directora de design do Yahoo! e cofundadora do serviço de publicação de fotografias Flickr, George Oates, mostra como, em última instância, o factor humano acaba por se impôr na Rede. Segundo ela, impõem-se ferramentas mais simples e rápidas, maior acessibilidade e, sobretudo, mais diversão.

Pergunta: Quero perguntar-te em primeiro lugar sobre o rápido crescimento que têm tido as redes sociais. Sítios como Youtube, Digg, Flickr e muitos outras que cresceram num período de tempo muito curto. Como muda a perspectiva de um sítio dirigido a centenas de utilizadores quando atinge a milhares e milhões?

Resposta: É uma boa pergunta. Penso que quando só podes ver cem pessoas podes reconhecê-las a todas mas quando tens milhares ou milhões já não podes reconhecer as suas caras, e isto obriga-te a olhara gente a que reconheces e sobre tudo olhá-la mais de perto.

Também apresenta um desafio de desenho interessante. Como desenhar um espaço gigante e que ao mesmo tempo dê uma sensação de intimidade? Penso que isto é no que devemos trabalhar. Porque é importante começar sendo pequenos, é o centro de tudo.

P: Rob Malda, o fundador de Slashdot, comentava na sua última visita a Espanha que o termo ‘Web 2.0’ é uma estratégia de marketing e não o estado actual da Web. Disse que todo este tempo temos estado numa fase beta e que há pouco alcançámos a Web 1.0 o 1.5. Está de acordo com isto ou pensa que o termo ‘Web 2.0’ é adequado para o momento que vive a Web agora mesmo?

R: Penso que se trata de um grupo de desenvolvimento tentando dar um número de versão a um fenómeno cultural, o que não faz muito sentido, penso que é um pouco tonto.

Vejo uma necessidade de marcar certas alterações mas também há que ter em conta que a Web é ainda muito jovem. Que idade pode ter, 20 anos? Ainda é muito jovem e portanto é bom reconhecer as mudanças que tem sofrido. As pessoas começam a dar-se conta de que a Internet pode interagir com pessoas e não só com máquinas, ou com empresas ou bancos. Agora a comunicação entre duas pessoas ou cem está tão facilitada como nunca antes. Desta forma, penso que o termo ‘Web 2.0’ é só útil para marcar uma era, é útil… poderia ser uma palavra como ‘guarda chuva’ ou ‘box (caixa)’ ou o que seja.

P: De que forma pensa que a proliferação de dispositivos móveis está a afectar e afectará no futuro, sítios como o Flickr?

R: Com um pouco de sorte, penso que os fará crescer ainda mais. No caso do Flickr, uma acção muito comum das pessoas é ter as suas fotos nos seus telefones móveis e poder ter a minha foto favorita que outra pessoa me tenha tirado, isso também é bom. Imagina fotos do Flickr vendo-se num porta-retratos web, que se o pudesses oferecer à tua avó, o poria na sua mesa e pudesse assim ver fotos tuas ao vivo. É muito bom, penso que quantos mais dispositivos existam nos quais possamos ver fotos, melhor para todos. Creio que é genial.

P: Que importância se dá à acessibilidade no desenvolvimento dos projectos no Yahoo! e de que maneira afecta a tua forma de trabalhar e a da tua equipa?

R: Provavelmente é importante distinguir entre a equipa de desenvolvimento do Flickr e o resto da equipa Yahoo! Penso que o enfoque do Yahoo! no sentido da acessibilidade é excelente e publicam padrões de desenho, recursos de código e todo o tipo de coisas que estão desenhadas para serem acessíveis e cumprir com os standards.

Creio que quando fazes parte de uma equipa que dá tanta importância à investigação e ao desenvolvimento, é importante poder fazer as coisas rapidamente e sem preocupares-te demasiado sobre um explorador velho… quando estás num espaço de exploração é bom que não te preocupes demasiado com demasiadas coisas, é melhor concentrares-te em construí-las.

Da mesma forma, o Flickr está num momento em que tem que se preocupar muito com a acessibilidade pelo volume de pessoas que o visitam, já não é um pequeno grupo fazendo das suas e neste aspecto a comunidade ajuda-nos muito. Escrevem-nos muito especialistas em acessibilidade aconselhando-nos a que implementemos certas coisas para melhorar o Flickr neste aspecto e fazêmo-lo o mais rápido possível para que as coisas sejam o mais acessíveis possível. Não temos nenhum especialista em acessibilidade na nossa equipa, pelo que estes conselhos são muito úteis para nós, alegra-nos aplicar os bons conselhos.

P: Como se maneja a implementação de publicidade em sítios como o Flickr e de que forma afecta esses sítios, cujo principal propósito é publicar vídeo e fotografias? (a ‘cegueira dos banners‘)

R: Começámos com um par de associações com companhias como a Nikon e a Nokia que não são explicitamente acções de publicidade mas que nos sugeriram umas campanhas de publicidade muito interessantes. Uma delas se trata de tirar fotos com uma Nikon, publicá-las e submetê-las a votação para mostrar o potencial que tem tirar as fotos com uma câmara Nikon, coisas deste tipo. Não creio que esta publicidade incremente a cegueira dos banners porque tem o enfoque na resposta aos utilizadores e em todas as contribuições que têm feito com as suas fotos.

“Estou muito interessada em evitar os ‘banners’ porque para além disso sei que não funcionam com eficiência”

Por outro lado, estou muito interessada em explorar novas formas de apresentar a publicidade, evitar os ‘banners‘ porque não funcionam bem. Provou-se que as pessoas colocam mais atenção no texto e cada vez menos nas imagens em movimento. Há muitas empresas que querem trabalhar com o Flickr, e procuraremos maneiras de apresentar a publicidade que sejam mais focadas no estabelecer uma ligação com o utilizador e não só para vender um produto.

Somos uma excelente plataforma para experimentar este tipo de coisas e eu seria a primeira a morrer a a revoltar-me na tumba se o Flickr estivesse cheio de ‘banners‘ por todo o lado, porque não gosto deste tipo de publicidade e afastaria a atenção das fotos, que são o tema principal.

P: As perguntas seguintes são acerca de Game Neverending e da sua experiência no Ludicorp. Para nos situarmos… quando você entrou no Ludicorp esta companhia estava a desenvolver este famoso jogo de papéis ‘online’ baseado na interacção entre utilizadores e a manipulação de objectos. Antes explicaste-nos na tua conferência que este projecto foi cancelado pelas fracas expectativas…

R: Ou nenhum pressuposto.

P: Foi este o único motivo?

R: Sim, basicamente e digo-o de forma muito directa. Todos gostávamos do jogo e todos os utilizadores desfrutavam muito jogando-o, mas chegámos ao ponto de não recebermos os nossos ordenados e esse tipo de coisas. Era divertido ao princípio mas eventualmente cansámo-nos.

P: Quais foram os desafios que enfrentou você e a sua equipa no desenvolvimento do GNE e que aprenderam com essa experiência?

R: Penso que uma das coisas mais importante que aprendemos foi sobre os humanos como seres sociais; encanta-os falar uns com os outros, fazerem coisas juntos e colaborar. É um dos exemplos mais notáveis, da minha experiência, de socialização através de um computador. Era um espaço em que as pessoas de repente se encontravam e se punham a falar, e muitas vezes se ajudavam uns aos outros… estes eram efeitos secundários que me faziam muito feliz. Também foi a primeira vez que tive a oportunidade de trabalhar num jogo do qual desfrutei também muito. Divertimo-nos muito, escrevíamos textos muito graciosos e podíamos actuar de forma estúpida. Foi realmente bom.

P: Com tudo o que aprendeu desta experiência, como se enquadraria num projecto de características distintas?

R: De facto, sinto muita curiosidade por um projecto de características completamente distintas, sabendo o que sei agora sobre a interacção na Internet. Conheci um homem numa conferência em Sydney que trabalhava no sector bancário e me dizia que nunca havia ouvido falar do Flickr. O pobre homem estava completamente submergido no seu trabalho fazendo a integração do seu sistema com o sistema de outro banco, um trabalho muito pesado e aborrecido e eu perguntava-me: Como poderia acrescentar humanidade a isto? Seria possível? Como poderia alguém divertir-se ali dentro? Às pessoas encanta-as divertirem-se e as coisas que as fazem rir. Inclusive nos ambientes mais sérios, como na banca, deveria haver sempre um espaço para um pouco de diversão. Assim gostaria de enfrentar um projecto como esse e ver se poderia fazer algo a este respeito. Estou segura de que todas as pessoas que trabalham no sector bancário não são todas aborrecidas.

P: Que projectos interessantes tendes planeado lançar no futuro no Yahoo!?

R: O resto da companha, Yahoo!, é um sítio muito grande e há um montão de lançamentos quase diariamente. Quanto ao Flickr, temos muitas coisas por lançar e uma delas é uma que me encanta muito. Trata-se de mostrar a informação do Flickr de uma forma mais acessível para que não tenhas que fazer uma pesquisa. Em princípio verás um mapa do mundo com etiquetas em diferentes lugares, assinalando o que chamaremos ‘cidades quentes’ que são os sítios em que mais actividade há e aonde mais fotos se estão a tirar, e também as palavras que as pessoas estão a utilizar para as descrever.

Por exemplo, podes ver Londres destacado no mapa porque há um evento aí, ou podes ver as inundações do norte de Inglaterra ou uma explosão em Nova York, ou o que se está a passar na Birmania… todas estas se destacariam no mapa. Poderás aceder a qualquer destas cidades porque que existirá uma página do Flickr para cada cidade do mundo onde poderás ver as fotos que as pessoas estão a tirar nesses lugares. É realmente fantástico e estou muito entusiasmada com este projecto.

P: Não posso esperar!

GO: Eu sei, eu também não! É muito emocionante!

P: Enumera três desejos para o futuro da Web.

R: Hmm, três desejos eh? deixa-me pensar… Gostaria muito que ninguém tivesse nunca que preocupar-se com uma ligação à Internet, que a Rede impregnasse o ambiente para que ninguém tenha que conectar nenhum cabo nem preocupar-se com módems porque está no ar… e para além disso que seja rápida.

“Os dispositivos deveriam ser algo mais e mais específico, creio que colocar muitas funções dentro de um mesmo dispositivo torna mais difícil o seu uso”

Desejo também a portabilidade dos serviços web numa variedade mais ampla de dispositivos, não só câmaras ou telemóveis também em outras pequenas coisas. Coisas tão interessantes como pensar em que posso apagar las luzes da minha casa enquanto estou a conduzir o meu carro para fora da garagem… em coisas como estas vejo muito oportunidades para fazer coisas muito úteis para as pessoas, coisas simples e muito divertidas… vejo um grande campo de desenvolvimento nisto. Os dispositivos deveriam converter-se em algo mais e mais específico, e não mais e maior. Creio que meter tantas funções dentro de um mesmo dispositivo torna mais difícil o seu uso. Na minha opinião, tirar-lhe funções e fazer com que só tenha uma ou duas funções, isto parece-me um caminho muito interessante.

E um terceiro… Não sei… Salvar o mundo!

P: E estes desejos… crês que se cumprirão num futuro próximo?

R: Espero que sim! Espero que os meus desejos se cumpram rapidamente. O acesso à Internet não cessa de melhorar e deixa muitas esperanças. Em países como o Japão ou Coreia o acesso à Internet é extremamente rápido e isso é um precedente excelente para o mercado mundial melhorar, sobretudo porque outros países podem seguir o exemplo dos que apostam em facilitar e melhorar as ligações. A Web depende do acesso e se não tens acesso não tens Web, e penso que a Web é muito rica, potente e portanto dever-se-ia facilitar-se-lhe o acesso.

P: E a última pergunta é: Que é que te faz mais feliz no teu trabalho?

R: Há tantas fotos tão bonitas! Podes conhecer tantas coisas tão intimas da vida das pessoas, felicidade, dor, realidade… e beleza… sabes? É algo que espero que todo aquele que que visite o Flickr possa ver, mas eu estou sempre a vê-lo. Cheguei a conhecer muitas histórias sobre muitas pessoas, gente que nunca conheci ou vi e, pode soar a falso… mas abriram-me muitas portas do mundo que antes estavam fechadas para mim. E isso é maravilhoso.

P: Foi um prazer conhecer-te e agradecemos muito o teu tempo.

R: O prazer foi meu. Vamos beber uma cerveja!

Leia no original.

Entrevista conduzida por PAMELA ZULOAGA

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Sobre Jorge Borges

Professor.
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