A fixação dos menores na Internet desconcerta pais e educadores
Maio 1, 2008 por Jorge Borges
Os pais, que antes limitavam as saídas para a rua dos seus filhos, agora fomentam-nas - pede-se que a Educação para a Cidadania trate do problema
A Internet mudou os hábitos de crianças e adolescentes, e desconcertou pais e educadores. Rapazes que passam horas videojogando, meninas que falam no chat quando a sua família dorme… Nem cortando-lhes os cabos do PC é possível desligá-los, se dominam o Wi-Fi. A consultora valenciana Mar Monsoriu há anos que estuda estas profundas mudanças no mundo educativo familiar.
No seu livro Técnicas de hacker para padres descreve a crescente dependência da Internet dos menores, sem que a maioria de adultos o saiba ou lhes importe. “Entre as crianças de 10 anos o acesso à Internet pode ser quase de cem para cem. Ligam-se desde as suas casas, as dos seus amigos ou familiares, ou desde o trabalho dos pais. Os jovens são especialistas em encontrar um meio de aceder à Internet”, assegura Monsoriu.
Consequência desse afã são os casos de que trata o Projecto Hombre de Valencia: “Rapazes que passam mais de 12 horas a jogar um videojogo e raparigas obcecadas pelo Messenger que se levantam de madrugada para chatear quando os seus pais dormem. Estatisticamente, há um incremento da utilização do computador, da Internet, dos videojogos e do telemóvel nos menores de todo o mundo”.
Nas suas entrevistas com as crianças, Monsoriu descobriu coisas tão surpreendentes como a de que um rapaz a quem outros façam a vida impossível na Rede, preferirá calar-se. “Crêem que os pais ficarão histéricos, que não vão ser capazes de lhes resolver o problema e a única coisa que farão será tirar-lhes a Internet ou o telemóvel”, afirma.
O ciberespaço escolar é o principal problema: “Um senhor de Zaragoza explicou-me que o seu filho começou a não querer ir ao colégio e a estar triste. Pelos vistos, um companheiro de turma insultava-o brutalmente pelo Messenger. Ele bloqueava-o, mas o ciber-atacante colocava-se de novo em contacto usando os nomes de utilizador de outros companheiros”.
As mensagens instantâneas são uma fonte constante de sustos para as crianças e também para as mães; por exemplo, uma descobriu que o seu filho tinha duas pastas de contactos, uma chamada Amigos e outra Desconhecidos. “É algo normalíssimo”, esclarece Monsoriu. “O número de contactos associa-se à popularidade”.
“A maioria dos pais e professores não sabem o que é uma rede social, nem que os seus filhos contam a sua vida minuto a minuto no Twitter”, diz a investigadora. A coisa também não melhora se os pais sabem de Internet. “Não lhes passa pela cabeça que a sua filha se despe diante de uma webcam. Todos pensam: ‘A minha filha, não”.
Postos a ignorar, os adultos ignoram como castigar. Se antes se castigavam as crianças proibindo-as de sair de casa, agora castigam-se obrigando-as a sair, para que não estejam frente ao PC. Também um erro, segundo Monsoriu: “Especialmente em rapazes de mais de 13 anos. Irão a um cibercafé ou procurarão um sinal Wi-Fi desprotegido de algum vizinho”.
A razão de fundo deste descontrolo é, segundo Monsoriu, “a falta de comunicação com os pais e o facto destes não darem aos seus filhos o apoio e as directrizes educativas necessárias. Alguns esperam que os seus filhos se auto-eduquem no uso da tecnologia. Também, em alguns casos, aos professores falta-lhes formação. A net-etiqueta deveria fazer parte de Educação para a Cidadania”.