A revolução digital oferece novas oportunidades ou gera novas brechas entre as nações e as pessoas?
Recomenda-se um bom livro. Humanizing the Digital Age [Üner Kirdar, editor. 2007. UN]. Esta obra traz uma mão cheia de verdades incómodas que chegam para reflectir por um bom bocado. A pergunta central à volta da qual giram os ensaios deste livro das Nações Unidas e da Kadir Has University (Turquia) apresenta o seguinte:
Sem cair em fórmulas mágicas este texto analisa a partir de diferentes perspectivas os cenários e estratégias tomados por 5 países. China, Espanha, Índia, Turquia e Irlanda, cada um deles rumou à sociedade do conhecimento por caminhos muito diferentes. Há dados que este texto apresenta que não deixam de impressionar (preocupar e surpreender). Aqui fica uma pequena selecção de alguns deles:
- A informação transmitida durante um mês pela Internet em 1997, em 2001 transfere-se em um segundo via fibra óptica. O custo de emitir 3 milhões de unidades de informação entre Los Angeles e Boston em 1997 era de U$150 e reduziu-se a 3 centavos de dólar em 2001.
- Nos últimos 10 anos nos EUA criaram-se 34 milhões de novos empregos (quem está a formar estes novos profissionais, como e para quê?)
- Do bilião de seres humanos que têm acesso à Internet, 50% provem dos países do G8 que equivale apenas a 14% da população do planeta. ( 50%!!! Quer dizer, entre o resto dos 200 e tantos países do mundo reparte-se a miserável soma de 500 milhões de pessoas ligadas. Se pensarmos que o mundo tem 6,000 milhões de habitantes…).
- As três inteligências da cognição humana (Sternberg, 1998) são: inteligência analítica, inteligência criativa e inteligência prática. (Se é assim, então por que é que continuamos a ensinar as crianças à base da memória?)
- Menos de 3 de cada 100 africanos usam a Internet, comparados com 1 de cada 2 habitantes do G8 que tem acesso à Rede.
- Toda a África (mais de 50 países) tem menos utilizadores da Internet que toda a França.
- A Dinamarca conta com mais do dobro de conexão global de banda larga que a que possui toda a América Latina e as Caraíbas juntos.
- África tem uma média de 3 telefones fixos por cada 100 habitantes. Do total de 26 milhões de linhas telefónicas, 75% está concentrado em apenas 6 das 55 nações africanas.
- África representa 13% da população do planeta, mas tem só 3,7% de todos os telefones fixos e telemóveis de todo o mundo.
- Em 1999 80% da população mundial não tinha acesso a um computador.
Se bem que países como a Irlanda ou a Índia registem avanços significativos na sua inserção no concerto da sociedade do conhecimento, oferecendo serviços de alto valor agregado, desenho de software, negócios centrados na produção de software, hardware e mão de obra altamente qualificada que trouxe notáveis melhorias no campo da macro economia, também existe o lado escuro deste panorama. Todas estas melhorias não se vêem reflectidas na mobilidade social, na redução da pobreza, na integração dos sectores rurais excluídos, na oferta de fontes de trabalho à mão de obra “não” qualificada.
Definitivamente, o mais aberrante, o que há por trás de todas estas maravilhas da terra prometida da sociedade do conhecimento é que oferece o que chamamos um perverso “crescimento selectivo”, a que nem todos têm acesso nem de que se pode beneficiar. Novas maneiras de gerar riqueza. Novas formas de produzir pobreza.
Um texto cheio de perguntas.
Links Relacionados:
ICT Success Stories Portal. (Outros sítios similares na UN).